Poema | Senhor Extraterrestre

 

POEMA

 

SENHOR EXTRATERRESTRE


“Vou contar-vos um história
que não me sai da memória,
foi pra mim uma vitória
nesta era espacial.
Noutro dia estremeci
quando abri a porta e vi
um grandessíssimo Ovni
pousado no meu quintal.
Fui logo bater a porta,
veio uma figura torta,
eu disse: “Se não se importa
poderia ir-se embora.
Tenho esta roupa a secar
e ainda se vai sujar
se essa coisa aí ficar
a deitar fumo pra fora.”

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado.
Quis falar mas disse “pi”,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
e pôde contar-me, então,
que tinha sido multado
por o terem apanhado
sem carta de condução.

“O senhor desculpe lá,
não quero passar por má,
pois você aonde está
não me adianta nem me atrasa.
O pior é a vizinha
que parece que adivinha
quando vir que eu estou sozinha
com um estranho em minha casa.
Mas já que está aí de pé
venha tomar um café,
faz-me pena, pois você
nem tem cara de ser mau.
E eu queria saber também
se na terra donde vem
não conhece lá ninguém
que me arranje bacalhau.”

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado.
Quis falar mas disse “pi”,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho,
disse para me pôr a pau,
pois na terra donde vinha
nem há cheiro de sardinha
quanto mais de bacalhau.

“Conte agora novidades:
É casado? Tem saudades?
Já tem filhos? De que idades?
Só um? A quem é que sai?
Tem retratos, com certeza.
Mostre lá, ai que riqueza!
Não é mesmo uma beleza?
Tão gordinho, sai ao pai.
Já está de chaves na mão?
Vai voltar pro avião?
Espere, que já ali estão
umas sandes pra viagem.
E vista também aquela
camisinha de flanela
pra quando abrir a janela
não se constipar co’a aragem.”

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado.
Quis falar mas disse “pi”,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
e pôde-me então dizer
que quer que eu vá visitá-lo,
que acha graça quando eu falo
ou ao menos pra escrever.

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse “pi”,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
só pra dizer: “Deus lhe pague.”
Eu dei-lhe um copo de vinho
e lá foi no seu caminho
que era um pouco em ziguezague”


Para ouvir o poema cantado por Amália Rodrigues!

 


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Para reler e guardar a biografia do autor!

INTERVALO – BIOGRAFIA DE CARLOS PAIÃO

de Nuno Gonçalo da Paula.

edição: Âncora Editora, setembro de 2011 ‧ isbn: 9789727803231

 

SINOPSE

Depois da publicação da biografia do compositor Nóbrega e Sousa, Nuno Gonçalo da Paula prossegue as suas investigações no campo da música portuguesa contemporânea com a biografia do cantor e compositor Carlos Paião, falecido com apenas 30 anos, vítima de um acidente de viação. Nascido a 1 de Novembro de 1957, em Coimbra, Carlos Paião viveu a infância em Ílhavo, onde escreveu, aos oito anos, a primeira quadra e, um ano volvido, a primeira composição. Em Lisboa, tornou-se um médico apaixonado pela música. As suas letras forma cantadas por artistas consagrados, como Amália Rodrigues, Fafá de Belém, Nicolau Breyner, Raul Solnado, Herman José, Florbela Queiroz, Joel Branco, ou Lenita Gentil. Vencedor de vários prémios, destaca-se o Festival RTP da Canção de 1981, com o inesquecível Play-Back. O criador de O senhor extraterrestre e Eles foram tão longe editou treze singles e dois LPs, entre 1981 e 1988. A obra inclui numerosos testemunhos, entre os quais os dos pais, esposa, António Sala, Eládio Clímaco, Florbela Queiroz, Herman José, Joaquim Letria, Maria Barroso Soares, Ramon Galarza e o já falecido Raul Solnado.

 

 


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