O que sente um professor num fim de ano letivo sem alunos na escola

 

O que sente um professor num fim de ano letivo sem alunos na escola

 

Este ano não houve festa de final de ano, os alunos não se puderam despedir dos colegas nem dos professores. O que sente um professor num final de ano letivo assim, tão distante dos seus alunos?

Foi isso mesmo que quis tentar perceber com a professora da minha filha. A Margarida terminou o 2º ano de pré-escolar com a professora Graça. No próximo ano letivo vai para o 1º ciclo, e aquela pessoa tão importante para o seu desenvolvimento, tão presente, tão querida, nem sequer pôde dar um abraço e desejar boas férias. As saudades são muitas, apesar do constante contacto por mensagens e vídeos. Mas não é a mesma coisa…

Pedi à professora Graça que tentasse transpor o que sente neste fim de ano letivo por palavras:

 

“Emoções

Costumo dizer que sou uma pessoa com muita sorte. Levanto-me de manhã, despacho-me à corrida para ir trabalhar, como toda a gente, mas eu tenho a melhor profissão do mundo. Recebo sorrisos, beijos e mil abraços por dia! Não podia ser melhor!

Hoje, dia 26 de junho, acordei triste, com uma tristeza profunda e nem sabia porquê…

Despachei-me lentamente, com aquela sensação que me faltava alguma coisa. Antes de sair de casa, mais uma olhadela para o WhatsApp, para o meu grupo de pais…. e descobri! Sim, descobri a causa da minha tristeza, último dia de aulas…

Uma lágrima rolou-me pelo rosto. Último dia de aulas e não vou ver nem estar com os meus meninos.

O meu marido perguntou-me:

– Que tens? Estás bem?

– Não, não estou bem… É o último dia de aulas e não estou com os miúdos, não os vou ver… Sabes, tenho saudades dos pequenos. Sinto falta dos sorrisos, sinto falta do barulho, da azafama da correria. Tenho saudades dos abraços.

Antes de entrar na escola, fui à papelaria e fui beber um café. As duas senhoras falaram-me do fim das aulas e eu, com a voz embargada pela emoção e pela saudade, lá explicava que tinha muitas saudades dos meninos e que hoje estava a ser um dia muito difícil em termos emocionais, pois não ia estar com eles.

Quando entrei na escola, havia silêncio, silêncio absoluto…. Entrei na sala e não havia abraços, não havia sorrisos nem beijos, só silêncio e paredes nuas. Sentei-me e comecei a arrumar trabalhos nos dossiers. A cada trabalho que arrumava, relembrava o momento em que tinha sido realizado, a primeira vez que copiou o nome, a primeira vez que desenhou a figura humana, a primeira vez que quis copiar uma palavra… tudo conquistas que me alegram e me fazem fazer uma festa. Sim, os meus meninos fazem-me falta, muita falta.

Claro que ralho, claro que dou um berro, claro que digo que não, claro que, às vezes, tenho atitudes erradas (também as tenho com a minha filha e amo-a incondicionalmente), mas ao fim do dia, quando chego a casa, faço uma análise do que correu melhor e pior e, quando reconheço que errei, no dia seguinte chego à escola e peço desculpa. Há que ter a humildade de pedir desculpa a uma criança. Mas também dou muito colo, muitos abraços e beijos. No meio das histórias, das letras e dos números, das pinturas e do recorte, há sempre tempo para piadas, risadas, brincadeiras e muitos mimos.

Este tem sido um ano atípico, tudo novo para todos, que eu acho que teria sido mais difícil de ultrapassar se não tivesse havido telefonemas, video chamadas e grupo no WhatsApp. Lançava desafios e os miúdos iam mandando trabalhos, filmes, danças… Sim, este ano teria sido mais difícil sem a ajuda das famílias. As famílias foram fabulosas. Sem umas famílias como as que tive, o meu trabalho não teria sido o mesmo.

Mesmo para quem tenha horários de trabalho complicados, há sempre hipóteses de participar na vida escolar dos filhos. A simples atitude de levar um livro para a escola é um ato de participação, o levar algo para partilhar com todos, o ir à escola fazer uma atividade, tudo isso são atos de participação. Defendo uma educação partilhada, uma educação onde deve haver um verdadeiro laço entre a escola e a família. Todo o trabalho de jardim de infância é revestido de atividades lúdicas que promovem aprendizagens a diversos níveis e o desenvolvimento social é uma delas. Há que aprender a ter respeito pelo outro, há que criar cidadãos ativos e participativos, logo, se os pais não participam na vida escolar dos filhos, não estão a dar um bom exemplo.

Ao longo deste período, passava o dia inteiro agarrada ao telemóvel, à espera dos trabalhos dos meninos. Cada vez que recebi um, até a alma se iluminava. E não fui só eu! Cada vez que conversava com as colegas, era exatamente a mesma coisa: «lancei este desafio e ninguém respondeu….» ou então «hoje responderam quase todos, é tão bom!». Todas vibrávamos com cada trabalho recebido.

Penso muitas vezes que nós, os educadores, somos mediadores de conflitos, internos e externos. Temos de mediar as nossas emoções, as das assistentes, a das crianças e as das famílias, entender e esmiuçar cada atitude, cada conversa, cada abraço, cada birra (as das crianças e as dos adultos – sim, birras dos adultos, porque nós os adultos fazemos imensas birras, às vezes mais do que as crianças), cada lágrima… Ser educador é estar desperto para cada um, tentar entender o que cada um diz, o que cada um sente. Ser educador é ter um coração do tamanho do mundo onde cabem todas as crianças e todas as famílias.

 

No entanto, o importante agora é preparar o próximo ano letivo. Sim, há muitos medos, muitas angústias e dúvidas, mas todos vamos tomar as decisões mais coerentes por forma a ficarmos todos em segurança.

 

Depois de tanta emoção pessoal e profissional, não quero deixar de referir que todas as escolas, todas as crianças e famílias que passaram por mim, fizeram de mim a Graça e a educadora que hoje sou, e tal como diz Saint Exupery: “aqueles que passam por nós, não vão sós, deixam um pouco de si e levam um pouco de nós”.

 

Obrigada aos meus meninos e às minhas famílias por fazerem parte da minha história.

 

PS: Quero referir que as emoções aqui descritas, são as minhas e neste momento da minha vida. Quero ainda deixar uma curta metragem que nos faz questionar os valores que queremos passar às nossas crianças e que crianças queremos para o futuro.

 

 

Graça Gaião”

 

 

Eu, como mãe, estou muito grata pela dedicação, por todo o amor demonstrado nestes dois anos, e por todo o esforço para manter a proximidade nestes últimos 3 meses. Foi sem dúvida muito importante para que a Margarida se mantivesse empenhada e, sobretudo, para não sentir tanta saudade da escola, dos colegas, e da professora e auxiliares.

 

Foto do último dia de aulas do ano letivo 2018/2019

 

Como eu, acredito que sejam muitos os pais que sentem a mesma admiração pelos professores dos seus filhos, que fizeram de tudo para minimizar os impactos do encerramento das escolas.

 

A todos os professores, obrigada!

 

Filipa Cordeiro C.

 


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